A dança possível de Frances Ha
- Laís Comini
- há 6 dias
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Frances, de Frances Ha, é uma dessas personagens que nos tocam em algum lugar quase esquecido. Ela é uma mulher que atravessa a vida como quem dança sem ter certeza da coreografia, tropeçando nas próprias expectativas, tirando-as pra dançar. Correndo pelas ruas como se ainda pudesse alcançar alguma coisa que nem ela sabe nomear, insistindo em permanecer fiel a "alguma coisa" mesmo quando o mundo lhe devolve, com certa brutalidade, que amadurecer talvez signifique abrir mão de algumas fantasias. Mas o que o filme nos mostra, com certa delicadeza incomparável, é que crescer não precisa ser o mesmo que desistir de si, e que pode ser justamente aprender a fazer manejos possíveis com a realidade sem perder de vista aquilo que, no fundo, nos move.
Frances é bailarina e quer dançar, mas o filme não fala exatamente da dança, podemos associar ao desejo em psicanálise, que não fala apenas daquilo que esta dizendo. A dança, em Frances, é uma forma de existir, uma maneira de colocar o corpo no mundo, uma tentativa de transformar em movimento aquilo que, se ficasse parado, talvez fosse sentido como angústia. Ela deseja uma vida artística, deseja permanecer próxima da amiga que funciona como uma espécie de refúgio afetivo, deseja ser reconhecida, deseja conseguir caber em algum lugar sem precisar se amputar para isso. No entanto, a vida vai lhe mostrando que o desejo não se realiza como uma linha reta, obediente, mas como um caminho cheio de desvios, adiamentos, pequenas perdas, reorganizações, frustrações. Frances vai descobrindo que desejar não é simplesmente querer muito uma coisa e ir até o fim sem vacilar, mas desejar é também suportar que aquilo que nos chama precisa, muitas vezes, mudar de forma para continuar vivo.
Talvez seja por isso que o filme seja tão bonito. Ele não tem o intuito de transformar Frances em uma heróina da superação, nem oferece uma narrativa confortável em que tudo se resolve no instante que a personagem finalmente "se encontra". Frances não se encontra como quem encontra uma chave perdida no fundo da bolsa. Ela se encontra aos pedaços, entre uma mudança de apartamento e outra, entre um convite que não vem, uma oportunidade que falha, uma amizade que se desloca, uma viagem impulsiva um tanto frustrada, uma conta que não fecha, um emprego que não corresponde exatamente ao sonho, mas que permite que o movimento continue e o sonho não morra. A beleza está justamente aí, ela faz concessões sem transformar essa concessão em desistência. Ela segue aceitando o real, pisando no chão duro da busca, mas ainda tentando preservar alguma coisa de sua própria música, como quem troca o palco imaginário por um espaço menor, menos glorioso, porém ainda possível de dançar.
Pensando um pouco na psicanálise, poderíamos dizer que Frances vive a travessia dolorosa entre a fantasia e o real. A fantasia aqui não é lida como uma mentira ou apenas uma ilusão. Ela é uma cena psíquica que organiza nossa forma de desejar, de amar, de sofrer e do que esperamos receber do mundo. Todos nós temos nossas fantasias, ainda que não as formulemos claramente. Imaginamos quem seremos, como seremos reconhecidos, que forma terá nossa vida, como seremos vistos pelos outros, enfim. Frances parece viver sustentada por algumas dessas imagens: a amizade com Sophie como promessa de permanência, a dança como destino luminoso, a juventude como território onde tudo ainda pode acontecer, a leveza como modo de sobreviver ao peso das exigências adultas. Quando essas imagens começam a falhar, não é apensar a realidade externa que se altera, algo no inconsciente também se desorganiza, porque aquilo que sustentava sua posição no mundo deixa de oferecer a mesma garantia.
É por isso que certas perdas doem mais do que deveriam, ou melhor, doem mais do que parecem doar quando olhamos de fora. A distância de Sophie, por exemplo, não é apenas a distância de uma amiga que segue outro caminho, é a perda de um espelho, de uma sustentação. Frances perde, naquele laço, uma versão de si mesma. Quando alguém muito importante e desloca de nosso lugar psíquico, não sofremos apenas pela ausência da pessoa, mas pela pergunta que essa ausência nos devolve: quem sou eu agora, se já não sou exatamente aquele que existia nessa relação? O inconsciente é profundamente afetado por essas reorganizações, porque ele se alimenta de marcas, cenas, repetições, promessas quase silenciosas e pactos invisíveis. Há amizades, amores e sonhos que funcionam como móveis antigos dentro da casa do sujeito. quando retirados, descobrimos que havia uma marca no chão, uma diferença na luz, um vazio que antes não víamos porque estava ocupado.
Frances, então, vai errando pela vida, e há algo muito precioso nessa errância. Elas se muda, se adapta, improvisa, ri quando talvez quisesse chorar, insiste em parecer leve mesmo quando o mundo começa a pesar. Mas sua errância não é vazia, ela tem a textura de uma elaboração em movimento. É como se cada lugar, cada quarto provisório, cada conversa desconfortável e cada pequeno fracasso lhe dissesse algo sobre o que já não serve, sobre onde ela já não cabe, sobre o que já pode morrer para que outra possa renascer. A vida de Frances parece uma mala mal fechada, com roupas escapando pelas bordas, mas talvez seja exatamente essa imagem que a torna tão próxima de nós, porque, muitas vezes, nós seguimos carregando coisas que já não combinam com o corpo que estamos nos tornando.
É interessante observar que, diante de uma vida adulta que se apresenta, entre amigos que Frances faz pelo caminho, o que chama atenção é o quanto ela parece desajustada. Frances falha na encenação contemporânea da mulher adulta perfeitamente resolvida, produtiva, desejável, independente. Ela é inadequada, excessiva, engraçada, carente, luminosa, por vezes inconveniente e é exatamente por mostrar isso sem receio, que nos causa. Numa cultura que transforma o sucesso em obrigação e a felicidade em performance, Frances aparece como um desvio poético. Ela não se apresenta como uma marca bem administrada de si mesma. E ao fracassar na sustentação de uma imagem ideal, ela nos mostra algo muito humano: a possibilidade de existir mesmo sem estar completamente acabado ou perfeito. Como ela diz: "eu ainda não sou uma pessoa de verdade".
Nesse sentido, a psicanálise nos ajuda a perceber que há uma diferença entre abrir mão de uma fantasia e abandonar o desejo. Abrir mão de uma fantasia pode ser muito necessário, porque nenhuma vida real suporta eternamente o peso de uma imagem idealizada. O problema pode surgir se, ao abrir mão das fantasias, concluirmos que nada vale a pena, já que não será como queremos. Frances, ao contrário, parece nos ensinar que o desejo pode sobreviver à queda das suas primeiras formas. Talvez ela não seja a grande bailarina que um dia fantasiou, talvez a amizade com Sophie não continue ocupando o mesmo lugar, mas ainda assim algo nela continua procurando uma forma de inscrição no mundo. O desejo, quando não é traído, encontra outros caminhos, talvez menos grandiosos, mas mais possíveis e verdadeiros.
Sustentar o desejo, portanto, não significa permanecer infantilmente agarrado a uma versão antiga de si, recusando qualquer limite ou frustração. Isso seria mais como ficar preso à fantasia, e não ao desejo. Sustentar o desejo implica aceitar que a vida impõe perdas, que os outros não existem para confirmas nossas cenas internas, que o tempo passa, que o corpo muda, que os vínculos se transformam, que o trabalho muitas vezes exige negociações, mas, apesar de tudo isso, podemos manter vivos em nós o que de fato nos mantém em movimento. Há uma ética nisso, que podemos formular como uma pergunta: de que modo posso continuar fiel ao que me causa, mesmo que o caminho precise mudar?
Frances faz manejos, ou seja, tenta encontrar formas possíveis de fazer o desejo continuar circulando. Há momentos quem que insitir do mesmo jeito seria como repetir uma cena de sofrimento, e em outros, ceder demais seria desaparecer. O que Frances vai aprendendo é que é possível se deslocar, reconhecendo o que é uma mudança necessária e o que seria uma traição de si mesma. Frances vai aprendendo isso sem grandes discursos, porque o filme não precisa explicar demais: seu corpo explica. Seu modo de correr, cair, dançar, se levantar e rir de si mesma mostra que a vida psíquica não acontece apenas na cabeça, mas também no ritmo do corpo, na hesitação do gesto, no modo como alguém ocupa ou não ocupa o espaço que lhe foi dado.
A aventura de Frances pela vida gera impacto porque ela nos coloca diante de uma pergunta nada simples, mas muito instigante: o que fazemos quando aquilo que sonhamos não encontra lugar exatamente como sonhamos? Algumas pessoas endurecem e chamam isso de maturidade. Outras se ressentem e passam a viver como se a vida lhes devesse alguma coisa, uma reparação. Outros ainda abandonam o desejo (a maior das traições) e entram em uma existência funcional, correta, adaptada, mas empobrecida de brilho. Frances parece escolher, mesmo sem saber, talvez uma quarta via. Ela aceita perder algumas imagens, mas não aceita perder completamente a dança, porque nesse caminho, meio torto, meio desajeitado, Frances inventa uma coreografia própria. E talvez seja isso que nos emociona, porque há algo em nós que também gostaria de continuar dançando depois das quedas, depois dos cortes, depois das respostas que não vieram, depois dos ideias que constuímos para o futuro e que precisaram ser enterradas.
No fim, Frances Ha, não nos oferece uma redenção espetacular, e isso é uma de suas maiores delicadezas. O filme não termina dizendo que tudo deu certo, como um final feliz, mas nos mostra que algo pôde encontrar uma forma. Frances não recebe a vida perfeita, mas ela conquista uma possibilidade. Um nome que cabe parcialmente numa caixa de correio, um trabalho que não é exatamente o sonho absoluto, mas que lhe permite permanecer próxima daquilo que deseja, uma solidão menos desesperada, uma identidade menos dependente do olhar do outro. Ela não se torna outra pessoa, não precisou se moldar para caber, mas ela se torna um pouco mais capaz de habitar a própria falta.
E talvez seja essa a beleza mais radiante de Frances, ela nos lembra que sustentar o desejo não é vencer na vida, nem é algo tão associado à realizar todos os sonhos em sua forma original, ou mesmo transformar a existência em uma narrativa impecável de sucesso. Sustentar o desejo é não deixar que a realidade, com suas exigências e perdas, nos convença a abandonar a parte mais viva de nós. É fazer do desvio uma travessia, da queda uma escuta, da frustração uma nova forma de movimento. Frances corre pelas ruas como quem ainda acredita que alguma coisa a espera, mas talvez o que a espera não esteja no fim da corrida; talvez esteja no próprio gesto de continuar correndo, desajeitada e luminosa, enquanto o mundo insiste em pedir que ela caminhe direito.
No fundo, Frances nos ensina que o desejo pode se apresentar como uma dança que precisa ser reinventada a cada mudança de música e que é preciso corpo para se movimentar através da sonoridade. E quem consegue continuar dançando, mesmo quando o palco diminui, mesmo quando a plateia vai embora, mesmo quando o corpo já não obedece ao ideal, talvez tenha encontrado uma forma rara de liberdade: a de fazer da própria vida não uma cópia do que esperavam, mas uma coreografia singular, imperfeita e profundamente sua.



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