Por quê sofremos?
- Laís Comini
- 18 de mar. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 22 de mai.

Sofremos, mas por quê sofremos?
Essa é uma questão que atravessa à todos nós. Em algum momento, seja por uma perda, por frustração, alguma angústia sem nome ou aquela sensação de vazio, todos nós sofremos. E por muitas vezes esse sofrimento é inexplicável.
Freud pensou o sofrimento como parte da própria experiência humana. Nas palavras dele: "O sofrer nos ameaça a partir de três lados: do próprio corpo, que, fadado ao declínio e à dissolução, nem mesmo pode dispensar a dor e o medo como sinais de advertência. Do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças poderosíssimas, inexoráveis e destruidoras. E por fim, dos relacionamentos com os outros seres humanos. O sofrimento que se origina desta última fonte talvez seja sentido mais dolorosamente que qualquer outro."
Além disso, Freud também nos mostrou que sofremos por existir, em nós, uma tensão constante entre o que desejamos e o que a realidade nos permite. Queremos prazer, alívio e satisfação, mas nem tudo pode ser vivido da forma como gostaríamos. Existem os limites, os acordos civilizatórios, a barreira ao gozo desmedido. Entre o desejo e os limites da vida, surgem muito do que chamamos de sofrimento psíquico. Essa ideia é interessante para enfatizar que, nós humanos, não vivemos à satisfazer apenas às necessidades biológicas. Vivemos movidos e chacoalhados por desejos, fantasias, impulsos e expectativas de satisfação (muitas vezes imediata). Porém, na maior parte do tempo, a vida real não responde a tudo isso de maneira tão rápida como gostaríamos. Existe o tempo de espera. Diante de uma escolha, existe uma renúncia, diante de uma expectativa, existe a frustração, e muitas vezes, a impossibilidade.
Por isso, nem precisamos de grandes tragédias para sofrer. O sofrimento nasce no cotidiano, em pequenos acontecimentos, como: esperar uma resposta e não receber, querer ser amado e não ser correspondido, desejar algo que não pode ser imediatamente vivido, insistir em uma satisfação que sempre escapa. Dizendo de outro modo, sofremos porque a realidade não coincide com a nossa fantasia de completude.
Isso também pode explicar o por quê do sofrimento psíquico ser tão difícil de nomear. Por vezes nem sequer sabemos exatamente o que está doendo, mas o incômodo está lá, a angústia está instalada, uma insatisfação se faz persistente. É como se houvesse um desencontro constante: o que desejo x o que é possível de fato.
Outro desencontro constante que podemos enfatizar aqui, é o que existe entre as chamadas instâncias psíquicas. Freud traz que a própria constituição do psiquismo pode ser equiparada à um campo de forças. Dentro de nós também não há harmonia, muitas vezes queremos uma coisa, precisamos fazer outra e ainda existe uma certa cobrança, crítica ou alguma probição ressoando dentro de nós. Podemos pensar que: uma parte em nós, quer e busca a satisfação imediata, aquele alívio rápido, uma descarga de tensão e isso sem ter que esperar muito. Outra parte tenta negociar com a realidade. É uma parte que percebe que nem tudo pode ser feito imediatamente e da forma como queremos, que existem as consequências, os limites, as regras, além do tempo e do contexto. E ainda, uma parte que julga, critica, compara e exige. Ela funciona como uma voz interna que diz: "você deveria ser assim"; "você deveria fazer assim"; "você deveria ter isso".
Desse campo de forças também nasce muito de nosso sofrimento. Por exemplo: você deseja algo, mas se culpa por desejar; quer descansar, mas se sente culpada ou se cobra produtividade; quer falar, mas morre de medo da reação do outro; quer se satisfazer, mas sente que isso é errado. Nesses casos, o sofrimento não é causado apenas pelo que vem de fora, do mundo externo, é também advindo dessa guerra interna que existe no psiquismo.
Lacan, por sua vez, também reflete sobre o sofrimento humano e para ele o sofrimento está ligado à estrutura do sujeito. Somos seres marcados pela linguagem, e é nessa entrada na linguagem que aparece a falta. Nunca conseguimos dizer tudo, nunca coonseguimos ser completamente plenos, nem totalmente satisfeitos. Sempre haverá algo que escapa e é dessa falta que advém o desejo.
Desejamos justamente porque não somos completos, alguma coisa nos falta e sempre vai faltar. Talvez por isso o sentimento de vazio pode voltar mesmo quando consquistamos algo que queríamos muito.
Lacan também diz que o sujeito sofre muito em sua relação com o outro. Não é somente um sofrimento relativo à brigas, rejeições ou decepções visíveis. Mas também sofremos porque dependemos do outro de algum modo para nos constituir. Precisamos do olhar, da palavra e do reconhecimento de alguém para nos sentirmos desejáveis, nomeados e existentes de certa forma. Porém, esse reconhecimento não é total, nunca é. O outro nunca consegue nos devolver aquilo que esperamos, na intensidade que desejamos e precisamos. Ele nos ama, mas não do jeito perfeito que idealizamos. Nos vê, mas não completamente ou suficientemente. E é justamente aí que aparece também o sofrimento, o mal estar. Queremos ser plenamente compreendidos, amados e desejados, mas é impossível, porque toda relação humana é atravessada por limites, pelas faltas e pelos desencontros.
Se você chegou até aqui, pode estar se perguntando: mas se o sofrimento é intrinseco ao ser humano e a falta tão constituinte, o que a psicanálise pode nos oferecer? A proposta psicanalítica, nesse sentido, não é apagar ou aniquilar o sofrimento, mas sim escutá-lo, dar à ele espaço, outras formas e deslocamentos.
Para esses sofrimentos que não conseguimos explicar de imediato, para os conflitos que retornam, as dores que se repetem e mesmo as angústias que insistem, apostamos que, através da fala, da historização desse sofrimento, podemos elaborá-los e compreendê-los de algum outro modo. E quando conseguimos falar, mesmo que sem sentido ou sem coerência de início, algo pode se deslocar e ser expressado de maneiras diversas. Isso abre a possibilidade de expandir o modo como compreendemos e vivenciamos esses conflitos, pois abre espaço também para o material inconsciente que faz parte desse sofrimento.
A grande aposta de Freud foi de que, atráves da fala, fragmentos inconscientes possam ser escutados na narrativa das dores e dos conflitos do sujeito que sofre. E através da escuta do psicanalista, pinçados e recolocados no discurso, abrindo assim, espaço para serem elaborados. Isso não quer dizer que a psicanálise promete uma vida sem falta ou sem frustrações. Ela ajuda a entender que nem todo sofrimento pode ser evitado, mas muito dele pode se tornar menos paralisante quando ganha palavra, quando deixa de ser vivido como uma confusão sem nome e passa a ser reconhecido como parte da história e do desejo de cada um.
Por isso, sofremos, cada um ao seu modo. E para cada sujeito se faz necessária uma escuta singular no processo de historização do seu sofrimento.



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