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Notas Sobre Um Corpo Cansado

Foto do escritor: Laís Comini
Laís Comini
28 de jul.
5 min de leitura

Atualizado: 21 de ago.


Há um tipo de cansaço que permanece mesmo depois de uma noite bem dormida. Ele acompanha o despertar, atravessa as horas do dia, senta-se à mesa, entra no trabalho, reaparece no treino e, muitas vezes, deita-se conosco ao fim do dia. O corpo parece carregado por algo difícil de localizar, como se estivesse sempre respondendo a uma convocação que nunca se encerra. Tenho a impressão de que parte desse esgotamento nasce da quantidade de exigências que hoje se depositam sobre a vida corporal. O corpo precisa sustentar a rotina, suportar a produtividade, manter o humor, organizar a imagem através da aparência, administrar a alimentação, controlar os sinais de envelhecimento e ainda demonstrar disposição. Até mesmo o descanso passa a carregar uma função: a de recuperar as forças para voltar a produzir. Nesse circuito, o cansaço deixa de ser apenas uma sensação física e passa a revelar o peso psíquico de uma existência permanentemente solicitada.


Observo como o corpo contemporâneo foi se transformando em uma espécie de tarefa interminável. Existe sempre algo a ser corrigido, melhorado, reduzido, aumentado, definido ou retardado. A pele precisa permanecer lisa, os músculos devem responder ao treinamento, o sono precisa ser eficiente, a alimentação deve ser limpa, a postura deve parecer sempre segura e a imagem precisa ser harmônica. Cada detalhe corporal pode virar um projeto de aperfeiçoamento. Nessa perspectiva, a linguagem do cuidado, muitas vezes, se mistura à linguagem da cobrança e se torna difícil perceber onde termina o desejo de cuidar de si e onde começa a obediência a um ideal moldado pela cultura. O corpo vai sendo vivido sob vigilância, como se estivesse continuamente prestando contas. Medidas, fotografias, exames, calorias, passos, horas de sono e índices de desempenho formam uma espécie de tribunal minuncioso. A gente passa a acompanhar os próprios números com a esperança de que eles ofereçam alguma certeza sobre seu valor, sua disciplina ou sua capacidade de pertencer ao mundo.


Essa transformação do corpo em tarefa encontra força na promessa de que existe uma versão ideal de nós mesmos esperando para ser alcançada. Essa versão aparece mais jovem, mais magra, mais forte, mais produtiva, mais desejável e mais satisfeita. O corpo ideal ocupa um lugar no futuro, mas organiza o presente, fazendo com que a experiência corporal hoje pareça sempre provisória. Vive-se em preparação para um corpo que ainda virá. Quando perder alguns quilinhos, quando definir mais as coxas, quando aquela calça voltar a servir, quando o rosto parecer mais jovial, talvez aí seja possível se sentir finalmente à vontade. O ideal funciona como um horizonte que recua a cada aproximação. O corpo muda, a meta também muda, e a satisfação permanece alguns passos adiante, lá, alhures. Há sempre uma nova correção disponível, uma nova promessa de transformação, uma nova insuficiência a ser descoberta e escancarada pela cultura.


Pensando no que poderia ser um contraponto, um corpo possível ocupa outro lugar nessa dinâmica. Ele envolve aquilo que poder ser habitado no presente, com suas forças, seus limites, seus ritmos e suas contradições. Habitar um corpo tem menos relação com aceitá-lo de forma pacífica e mais relação com suportar a intimidade que ele exige. Em experiência, o corpo sente prazer e cansaço, deseja e recua, adoece, envelhece, muda de forma, surpreende e escapa ao planejamento. Isso porque o corpo conserva uma dimensão de estranhamento, nunca se torna inteiramente conhecido, algo sempre escapa. Mesmo quando nos dedicamos a conhecê-lo, algo sempre ficará fora do alcance. Uma dor pode aparecer sem uma explicação imediata, um gesto pode vir a revelar uma tensão, um encontro que modifica a frequência cardíaca, uma palavra pode produzir calor, vergonha ou arrepio. O corpo possível inclui essa parte indomável que insiste em não caber completamente nas imagens que fabricamos para nós.


O interesse da psicanálise vem justamente nesse ponto, um corpo que excede o organismo. O corpo humano nasce em uma trama de palavras, banhado de olhares, cuidados, ausências, expectativas e afetos. Antes de sabermos nomear o que sentimos, alguém já interpreta nosso choro, supõe que estamos com fome, atribui variados sentidos aos nossos gestos. Aos poucos, o organismo passa a ser atravessado pela linguagem e se transforma em corpo vivido, movimentado por essa dinâmica fisiológica e linguística. O corpo participa da história do sujeito de maneira singular, compondo uma linguagem que se manifesta por fragmentos, repetições, silêncios e intensidades. Aquilo que foi vivido também vai deixando marcas na forma como cada pessoa se aproxima do que é prazeroso, do próprio movimento, da maneira de se expor, do toque, do olhar do outro.


Tenho como premissa de que seja por isso que uma imagem nunca consiga representar completamente a experiência de ter um corpo. O espelho nos oferece uma forma, enquanto a vida corporal acontece em outra espessura. Há dias em que a imagem nos parece familiar e outros em que ela pode se tornar uma completa estranha. Tem momentos em que o corpo é fonte de potência e momentos que aparece como obstáculo, como limite e até como uma vergonha. O sofrimento surge exatamente aí, quando a distância entre o corpo ideal e o corpo vivido se transforma em condenação. Passamos a tratar cada variação como um fracasso mesmo, cada pausa como sinônimo de fraqueza e até os limites como falta de força de vontade. A crueldade encontra uma linguagem cultural cotidiana "preciso compensar", "não deveria ter comido", "tenho que voltar ao foco", "estou me abandonando". O cuidado nessa linguagem vai adquirindo forma de dívida constante e o corpo se torna o lugar onde essa dívida é cobrada.


Também percebo que o exercício físico pode ocupar posições muito diferentes nessa relação. O movimento pode ser encontro, curiosidade, prazer, elaboração e até descoberta. Pode oferecer uma maneira de sentir a própria presença e construir um tipo de intimidade com aquilo que o corpo consegue fazer. Em outros momentos, o exercício entra no circuito da punição, funcionando como pagamento por ter comido, descansado, envelhecido ou escapado da rotina. O gesto é parecido por fora, porém a experiência subjetiva muda inteiramente. Correr pode ser uma forma de respirar o mundo ou uma tentativa desesperada de controlar as medidas. Treinar pode amplicar a relação com o próprio corpo ou aprofundar o estado de vigilância sobre as métricas. A diferença aparece na maneira como cada pessoa se escuta durante o movimento, na liberdade de alterar o ritmo e na possibilidade de reconhecer que um corpo também fala por meio da fadiga, do prazer, da resistência e da vontade de parar.


Por isso, penso que o cuidado como escuta abre uma pequena fresta, como uma possibilidade nova, nesse cenário. Escutar o corpo envolve aproximar-se dele sem exigir que cada sensação produza um resultado. Explorar os movimentos se torna uma maneira de experienciar a vida. Há movimentos que servem pra fortalecer, outros para aliviar, experimentar, brincar, permanecer em contato consigo mesmo...

Essa relação pode incluir sim a disciplina, o esforço e o compromisso, sem que se tornem instrumentos de humilhação ou comparação. O cuidado nesse sentido, tem alguma relação com abandonar a fantasia do domínio completo do corpo, e constrói uma convivência um tanto mais curiosa com esse corpo que se tem, com o corpo que muda e que sempre nos escapa.


Podemos explorar mais a pergunta: se deixarmos de pensar o corpo como uma tarefa ideal a ser sempre trabalhada, qual relação com ele poderíamos construir?

 
 
 

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