Por Que Repetimos o Que Nos Faz Sofrer?
- Laís Comini
- há 40 minutos
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Existem alguns tipos de sofrimento que parecem conhecer o caminho de volta à nós. Podem aparecer com uma nova roupagem, novos rostos, lugares ou circunstâncias, mas aquela sensação antiga é sempre reconhecida. Sabem? Aquele mesmo medo do abandono numa nova relação. Aquela insegurança ou sensação de insuficiência num trabalho diferente. Certas discussões que seguem um roteiro familiar, como se a única diferença em cena fossem os personagens. Por que repetimos esses modos de sofrer quando o que desejamos é mudar?
O que Freud percebeu é que a vida psíquica ultrapassa a busca consciente por bem-estar. Em muitos casos, o sujeito retorna a experiências dolorosas, recria vínculos frustrantes e se coloca em situações muito semelhantes àquelas que lhe causaram sofrimento. Freud vai chamar de Compulsão à Repetição esse movimento psíquico que se trata de uma força que atravessa a vontade consciente. Ou seja, esse movimento está longe de ser dominado, podemos compreender que uma relação faz mal e, ainda assim, sentirmos presos à ela. Podemos reconhecer uma autocobrança e continuar vivendo sob a sensação de estarmos sempre em dívida. O conhecimento racional desse movimento alcança somente uma parte da experiência, enquanto que, a outra parte, permanece atuando silenciosamente.
Podemos dizer que a repetição, nesses casos, ainda não encontrou uma elaboração. Isso porque, algumas experiências deixam marcas antes que as palavras possam organizá-las. Elas permanecem em nós como sensações, expectativas, medos e maneiras de se relacionar que vão se tornando familiares. E com isso, em vez de serem lembradas como passado, reaparecem no presente da experiência. Pode-se viver uma demora em receber uma mesagem como uma experiência de abandono. Uma crítica profissional como uma humilhação, um afastamento amoroso pode despertas a força de perdas muito anteriores. Em suma, a situação atual vivida abre portas para afetos antigos, que retornam com uma intensidade difícil de compreender apenas pelo que está acontecendo naquele momento presente.
Por isso, podemos pensar a repetição como uma memória sem lembrança. O sujeito revive uma experiência sem reconhecer completamente o que está sendo revivido ali. Freud afirmava que, muitas vezes, aquilo que não pôde ser recordado retorna por meio da ação. Repetimos no lugar de lembrar. Voltamos a ocupar posições conhecidas e familiares, esperamos do outro respostas nesse mesmo lugar (familiar) e, mesmo em novos vínculos, revivemos versões antigas das cenas. O passado permanece vivo, participando das escolhas presentes sem anunciar claramente sua presença.
Essas escolhas também se relacionam com as formas de proteção construídas ao longo da vida. Chamados de "mecanismos de defesa", eles surgem para tornar suportáveis os conflitos, desejos e angústias. O mecanismo do recalque, por exemplo, afasta da consciência determinados conteúdos, embora eles continuem a produzir seus efeitos. O mecanismo da projeção surge colocando no outro sentimentos difíceis de serem reconhecidos em si. A racionalização cria explicações coerentes para movimentos guiados por razões afetivas mais internalizadas. Essas defesas vão criando funções importantes na história do sujeito, pois, em algum momento, o ajudaram a atravessar experiências para as quais ainda não havia recursos suficientes.
Com o passar do tempo, uma defesa pode se tornar cada vez mais rígida e a solução construída para uma situação antiga continua sendo utilizada diante de novas vivências. Quem aprendeu que precisava agradar para ser amado pode transformar cada relação numa busca por aprovação. O sujeito que viveu o amor como incerteza pode estranhar vínculos estáveis e intrepretar uma relação tranquila como falta de desejo. Ou mesmo aquele que encontrou segurança controlando tudo, pode se sentir ameaçado ao depender de outra pessoa em algum momento. O sofrimento ai se repete justamente porque o conhecido oferece uma espécie de orientação, mesmo quando machuca, ele possui uma linguagem já familiar ao sujeito.
Lacan nos ajuda a compreender esse movimento ao mostrar que o sujeito se constitui na relação com o outro. Desde cedo, buscamos no olhar, nas palavras e nos gestos alheios alguma resposta sobre quem somos e sobre o lugar que ocupamos. Muitas das repetições se organizam em torno dessas perguntas: "o que o outro quer de mim?" "o que preciso ser para merecer o amor?" "como devo agir para não ser abandonado?". Essas são questões que raramente aparecem de forma direta. Mas se manifestam nos vínculos, nas escolhas amorosas, na relação com o trabalho e nas exigências dirigidas ao próprio corpo.
A repetição também pode preservar uma antiga esperança. O sujeito pode repetir a ação de se aproximar continuamente de pessoas indisponíveis, talvez esperando que, desta vez, alguém finalmente escolha permanecer. Outra, trabalha até a exautão, como se cada conquista pudesse oferecer o reconhecimento que sempre sentiu faltar. Há ainda a possibilidade de um sujeito se colocar na posição de cuidador, sustentando a fantasia de que será indispensável e, por isso, protegido do abandono. Cada cena contém sofrimento, defesa e desejo pois, existem nela uma tentativa de produzir um desfecho diferente para uma história que permaneceu aberta.
Na linguagem lacaniana, o sujeito gira em torno de uma falta que nenhuma conquista consegue preencher completamente. O desejo nasce justamente dessa falta e continua se deslocando. A repetição, por sua vez, surge quando alguém transforma uma pessoa, uma aprovação ou um ideal em uma promessa de completude. Assim, a vida passa a ser organizada pela tentativa de obter uma resposta definitiva do outro, para aquelas perguntas que citamos aqui, principalmente. E como essa resposta nunca se estabiliza iinteiramente, pois a vida é um momento sempre em fluxo, o circuito recomeça. Busca-se outra relação, outra confirmação, outro corpo, outra conquista, enquanto a mesma pergunta segue viva ativando a ação.
Na experiência analítica, essas repetições aprecem também na relação com a analista. Chamamos de transferência. O medo decepcionar, a necessidade de ser reconhecido, a expectativa de receber respostas imediatas ou mesmo a certeza de que haverá abandono podem surgir dentro do próprio tratamento. Mas é exatamente através da transferência que essa repetição será vivida e escutada em um espaço no qual seus sentidos podem começar a aparecer. Aos poucos o sujeito percebe como atribui lugares ao outro, quais as respostas espera dele e de que maneira participa das cenas que pareciam simplesmente acontecer.
Esse trabalho exige tempo, exatamente por que toda repetição guarda uma função e escuta analítica se pretende, também, escutar o que não se diz diretamente sobre essa função. Por exemplo: o sujeito que abandona projetos antes de terminá-los pode estar evitando o risco de ser avaliado. Quem escolhe pessoas emocionalmente distantes pode conservar o desejo no terreno da espera e se proteger das incertezas da intimidade. A repetição produz sofrimento, e ao mesmo tempo, mantém certas angústias sob controle, num campo familiarizado. Compreender essa função abre caminhos outros e não se trata de simplesmente de interromper um comportamento.
A análise permite escutar de outra forma, transformando a pergunta: "por que faço isso outra vez?" em outras perguntas como: "o que essa repetição pretende proteger?", "que lugar ela permite ocupar?" "o que ainda se espera receber do outro"?. E à medida que essas questões vão ganhando palavras, aquilo que parecia 'destino' começa a revelar sua construção, sua forma. Surge ai, uma pequena distância entre a angústia e a resposta habitual, entre a expectativa do outro e o próprio desejo.
Talvez a mudança possa começar nesse intervalo. Alguns movimentos discretos podem começar a surgir a partir do rompimento desses roteiros antigos. Aceitar cuidado sem tranformar o vínculo em dívida, sustentar uma escolha sem esperar a aprovação absoluta do outro. Reconhecer um limite antes que o corpo precise anunciá-lo através da exaustão.
Repetimos o que nos traz sofrimento porque o sofrimento também guarda uma história. Ele carrega defesas contra o desamparo que está para todos nós, as formas de amar aprendidas e esperanças ligadas as cenas que ainda procuram desfecho. O que se oferece, através da escuta psicanalítica, é um lugar para que essas histórias possam ser escutadas, remendadas fio a fio. Quando aquilo que retornava em atos e sintomas encontram palavras, o passado pode adquirir outros sentidos e status de passado. Entre o que já aconteceu e aquilo que ainda pode ser inventado, surge espaço para o novo e para novas escolhas.



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