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O Tempo é o Tecido dos Nossos Sonhos

  • Foto do escritor: Laís Comini
    Laís Comini
  • 10 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

O tempo, observado pela lente da clínica e da crítica cultural, deixa de ser linear e revela-se como um tecido. Deixa de ser uma superfície homogênea e é lido como uma trama de fios que se cruzam, tensionam e às vezes se rompem. Essa metáfora têxtil não é apenas poética, mas serve de ferramenta conceitual que nos permite pensar o modo como o inconsciente organiza o vivido. Nessa perspectiva, o sonho não é um evento isolado que acontece à noite como se fosse um acidente do repouso, é sim um ponto de sutura, uma tentativa do sujeito de costurar fragmentos dispersos de tempo (memórias, perdas, expectativas) em algo que possa ser habitado. O que chamamos de sonho é, portanto, o lugar onde o tecido do tempo se mostra. Mostra suas falhas, suas remendas, suas repetições.


O inconsciente dispõe de uma cronologia própria, uma temporalidade pulsional que não se submete ao compasso do relógio social; enquanto o cotidiano se organiza por cronogramas, entregas e prazos, o tempo psíquico se articula por deslocamentos, adiamentos e retornos, movimentos que revelam a lógica do recalcamento e da repetição, não a da eficiência. O sintoma aparece aí como uma memória encarnada, uma inscrição do passado que persiste como enigma; a repetição não é mera redundância, mas a insistência de uma pulsão que reclama elaboração e que desafia a narrativa do progresso linear. O sonho que retorna não replica um enredo: reativa uma tentativa do sujeito de reordenar sua temporalidade interna, de costurar o que foi fraturado pelo trauma ou pela castração. Nesse gesto, o sonho funciona como uma agulha pulsional, uma operação de sutura que insiste em remendar o rasgo que a vida social e suas exigências de produtividade preferem ocultar ou negar. Ler um sonho, na clínica, é decifrar as marcas dessa costura: localizar onde o fio puxa, onde a linha cede, onde a remenda: sintoma, fantasia, imagem, brilha com uma intensidade que denuncia a presença do recalcado e aponta para possíveis caminhos de elaboração.


A crítica cultural contemporânea precisa partir da constatação de que vivemos uma era que converte o tempo em mercadoria, e essa conversão não é apenas um fenômeno econômico: ela reconfigura a economia pulsional do sujeito, impondo uma temporalidade de entrega que colide com o tempo do inconsciente, aquele tempo marcado por adiamentos, repetições e retornos que guardam a marca da castração e do trauma. Essa aceleração contemporânea, celebrada como virtude produtiva, não apenas empobrece a textura do tempo subjetivo; ela afina e tensiona o tecido temporal de modo que a capacidade de simbolizar se fragiliza, tornando mais difícil que o luto, o desejo e a fantasia encontrem espaço para se desdobrar em camadas e serem trabalhados ao longo de um processo analítico. Quando tudo é imediato, quando a experiência é comprimida em instantes de consumo e visibilidade, o espaço para o sonho se estreita e o inconsciente encontra menos frestas por onde se manifestar, de modo que o sintoma e a repetição passam a ocupar funções que antes cabiam à elaboração: o acting‑out substitui a palavra, a imagem fugaz substitui a narrativa.


A cultura da velocidade produz, assim, sujeitos cujos sonhos aparecem comprimidos, fragmentados, incapazes de sustentar narrativas longas e complexas; o que antes podia ser tecido em camadas — memórias que se entrelaçam com fantasias, o trabalho de luto que se estende no tempo, o desejo que se articula em elaborações sucessivas — é hoje reduzido a flashes, a imagens que passam sem deixar rastro, e essa compressão temporal não é neutra porque altera a relação do sujeito com seu passado e com a promessa de futuro, enfraquecendo a capacidade de manter uma linha de continuidade que permita a construção de sentido. O tecido temporal, assim afinado e translúcido, torna‑se mais vulnerável ao rasgo: o trauma, que antes podia ser gradualmente simbolizado, corre o risco de permanecer como fenda aberta, fonte de sintomas que insistem e retornam.


Reconhecer o tempo como tecido implica, por outro lado, uma exigência ética e clínica: nossas feridas temporais — traumas, nostalgias, arrependimentos — não são defeitos a serem corrigidos por técnicas de otimização ou por estratégias de produtividade, mas pontos de trabalho psíquico onde o sujeito pode, com a ajuda da escuta analítica, costurar novas possibilidades de existência. A clínica psicanalítica não tem por objetivo restaurar um tempo idealizado ou recuperar uma cronologia perdida; ela propõe ensinar a tocar o tecido com cuidado, a aceitar as remendas como testemunhas de uma história pulsional que insiste em continuar, e a transformar a repetição em oportunidade de elaboração, acompanhando a transferência como uma costura que permite experimentar outras maneiras de ligar os fios. Nesse sentido, a escuta analítica funciona como um espaço temporal protegido, onde a palavra pode retardar o gesto, onde o sujeito pode ensaiar outras formas de narrar e, assim, inventar modos de habitar o próprio passado e projetar futuros.


O sonho, nessa perspectiva, deixa de ser mero refúgio do real para se tornar uma prática de invenção temporal: um laboratório onde o sujeito experimenta combinações de passado e futuro, onde o impossível se faz presente como possibilidade e onde a imagem onírica opera como ponto de sutura entre o que foi e o que poderia ser, entre a perda e o desejo que persiste. Escutado na clínica, o sonho não se apresenta como enigma a ser decifrado de imediato, mas como uma tessitura que pede tempo — tempo para ser desfiada, tempo para ser remendada, tempo para que a elaboração aconteça — e é nessa paciência analítica que as linhas que atravessam o sujeito podem, gradualmente, ser reconhecidas e reordenadas.


Há, por fim, uma dimensão política intrínseca a essa reflexão: a organização social do tempo molda o inconsciente, e políticas de trabalho, regimes de produtividade e a lógica do consumo imediato participam da formação de um tecido temporal que favorece certas formas de subjetividade enquanto excluem outras. Sonhar, em sociedades aceleradas, pode tornar‑se um gesto de resistência — não uma romantização da lentidão, mas uma recusa da compressão do tempo que impede a elaboração; é insistir em narrativas que não se dobram à urgência do mercado e reivindicar espaços temporais necessários à criação de sentido e à vida psíquica. Pensar o tempo como tecido é, portanto, recuperar uma dimensão estética e ética da existência: aceitar que a vida psíquica se organiza em camadas, que o sujeito é atravessado por fios que vêm de longe e apontam para futuros incertos, e reconhecer que as remendas, as cicatrizes e as repetições não são sinais de fracasso, mas testemunhos de uma atividade contínua — a tentativa, sempre inacabada, de costurar um sentido que permita viver.

 
 
 

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