Que a Vida Deixe à Desejar
- Laís Comini
- 16 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

Que a vida deixe à desejar, para que possamos continuar desejando.
O fim de ano chega sempre como um dobra no tempo, um ponto de inflexão em que a vida parece suspender a respiração por um instante antes de seguir a diante. Há algo de profundamente humano nesse ritual de encerramento e recomeço, como se estivéssemos todos conectados por um mesmo fio de expectativas, um mesmo desejo de que o próximo ciclo seja, de algum modo, mais nosso, mais pleno, mais alinhado com aquilo que pulsa dentro de nós. E é justamente nesse território entre o que foi e o que ainda não é que o movimento desejante da vida se revela em sua força.
A vida, afinal, é feita de desejo. Não falamos do desejo entendido apenas como vontade ou ambição, mas como força vital (por isso uma força, me leva a cantar - dizia caetano), como um impulso que nos arranca da imobilidade e nos lança em direção ao que ainda não existe. É esse movimento que nos mantém despertos, atentos e vibrantes. É ele que nos faz levantar da cama mesmo nos dias mais opacos, que nos faz sonhar mesmo quando o mundo parece estreito, apertado, que nos faz insistir em caminhos que ainda não sabemos pra onde vão levar. O desejo é o motor secreto da existência, e sem ele tudo se tornaria estático, previsível, quase morto.
Talvez seja preciso preservar esse gesto de faltar, não exatamente como falha, mas como abertura. Há algo de profundamente vital naquilo que não se completa, na fresta que insiste em permanecer entreaberta, na pergunta que se recusa a ser respondida. É nesse intervalo que o desejo respira. A completude seria um tipo de morte: se tudo estivesse resolvido, se cada anseio encontrasse seu objeto sem demora, se cada sonho se realizasse no instante em que nasce, o que restaria além da imobilidade? O desejo só pulsa porque algo escapa, e é justamente essa ausência que nos convoca a seguir, a criar, a deslocar-se, a tentar outra vez. A falta é o motor secreto da vida.
O fim de ano intensifica essa experiência. Ele nos coloca diante do espelho do tempo e nos devolve uma imagem feita de ternura e estranhamento. Reconhecemos o que conquistamos, mas também o que se dissolveu entre os dedos. Vemos promessas cumpridas e outras que ficaram suspensas no ar. Vemos encontros que nos ampliaram e desencontros que ainda reverberam. E, no meio desse mosaico, percebemos que o que faltou não é necessariamente fracasso, mas sinal de que ainda estamos vivos, ainda desejantes, ainda atravessados por um movimento que não cessa.
É curioso observar como, nessa época, cada um tenta organizar o próprio caos à sua maneira. Há quem faça listas, revise metas, conte vitórias e tropeços como quem tenta decifrar um enigma. Há quem prefira apenas sentir, permitindo que o tempo faça o trabalho de costurar sentidos. Mas, independentemente do estilo, todos somos tomados por uma certa sensação de "passagem". O ano que termina deixa rastros, o que chega traz promessas, e entre os dois existe um intervalo quase sagrado — um respiro onde percebemos que a vida é feita de ciclos, e que cada ciclo carrega em si a potência do que ainda pode vir a ser.
Nesse entremeio, o desejo ganha contornos mais nítidos. Ele aparece nas pequenas resoluções silenciosas, nos sonhos que retornam como visitantes insistentes, nas vontades que sobrevivem mesmo depois de um ano inteiro de tentativas. É como se o fim do ano sussurrasse que ainda há tempo, não para realizar tudo, mas para continuar desejando. E, ao desejar, continuamos vivos.
Talvez por isso seja tão essencial acolher o que falta. Em vez de olhar para o não vivido com frustração, podemos olhá-lo com curiosidade. O que essa ausência quer nos dizer? Para onde ela aponta? Que deslocamento ela convoca? A vida deixa à desejar porque sabe que é no vazio que o novo tem a possibilidade de germinar. É ali que o desejo encontra solo fértil, que a imaginação se expande, que a coragem ganha corpo e a esperança se reinventa.
Enquanto o calendário se inclina para o próximo ciclo e o tempo parece respirar mais devagar, somos convidados a um gesto de ousadia serena: reconhecer o desejo em toda a sua complexidade. Reconhecer aquilo que pulsa antes mesmo de assumir forma definida, aquilo que nos desloca mesmo quando ainda não sabemos nomear a direção, aquilo que falta não como um vazio que dói, mas como uma passagem que se abre.
Que o novo ano venha com suas lacunas luminosas. Que ele nos deixe à desejar, para que possamos seguir desejando. Que nos encontre em deslocamento, atentos ao que pulsa, disponíveis ao que nasce, generosos com o que ainda não sabemos. Porque, no fundo, viver é isso: caminhar ao lado do desejo, permitindo que ele nos conduza a territórios que ainda não imaginamos, mas que já começam a nos chamar, silenciosamente, pelo nome.



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